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PPGVET · Apostila Técnica · Suinocultura
Material Didático

Descomplicando os 42 dias

Por Dr. Jamil Faccin — a creche do desmame ao envio para a terminação.

Prefácio

Ciência que se aplica no campo

Muitas vezes os artigos científicos são carregados de linguagem difícil, o que impossibilita quem não é cientista de entender o que foi feito ou concluído em um dado trabalho. Trazendo para a suinocultura, isso acontece muito. Muito “pesquisar por pesquisar” — e sou fã da ciência e das pesquisas — e pouco “quais as implicações destes resultados para o dia a dia do campo?”.

Neste e-book, o Dr. Jamil Faccin faz uma digestão completa da literatura atual no tema de creche e aborda desde temas de alto impacto, como a idade ao desmame, até temas polêmicos, como a complexidade das dietas no início de creche. Vai ser difícil você começar a ler e parar antes de terminar. Bom mergulho neste material com conteúdos que você vai poder aplicar hoje mesmo nas creches do Brasil.

Márcio Gonçalves

O autor

Dr. Jamil Faccin

Médico veterinário pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Trabalhou como extensionista por 4 anos. Mestre e doutor pela UFRGS, com período sanduíche na Kansas State University. Sua pesquisa concentrou-se em estratégias de manejo em creche e terminação visando melhorias produtivas e econômicas para o sistema.

Apesar da formação, Jamil fica mais entusiasmado contando histórias que envolvem música, dança, sua infância no interior, seu time de futebol, suas aventuras e um café. Atualmente é sócio-proprietário da Wisenetix e pós-doutorando da Kansas State University.

Sumário

O caminho da apostila

Fundamentos
  • Premissas (receita de bolo)
  • A nuvem (nublada) do desmame
Idade e primeira semana
  • Idade ao desmame
  • Primeira semana: sobrevivência e perfil de ganho
  • Uniformização por peso ao alojamento
Manejo e nutrição
  • Manejo alimentar: comedouros e água
  • Dietas pré-iniciais “caras”
Instalações
  • Densidade
  • Tamanho de baia
Estratégia e dados
  • Efeito multiplicador
  • Número de origens
  • Entendendo os dados
Fundamentos

Premissas (receita de bolo)

Para assar um bolo, além dos ingredientes, precisamos de um forno, temperatura ideal, forma adequada, precisão de tempo. Vencidas essas etapas, aí se discutem ingredientes, textura, cobertura. Faço a mesma analogia com a fase de creche: não adianta discutir os ingredientes (formulação das dietas, espaço de comedouro, idade ao desmame, entre outros manejos) se não atendemos às premissas.

  • Sala limpa, aquecida, desinfetada e com no mínimo 1 dia de vazio sanitário.
  • Bebedouros na altura ideal.
  • Comedouros sem água da desinfecção, mas sim com ração.
  • Piso sem rachaduras ou quebras.
  • Vacinações ao desmame executadas corretamente.

Nas próximas páginas vou falar alguns pontos que julgo ideais para o sucesso dessa jornada de 42 dias. Você pode discordar e/ou acrescentar algum ponto que, talvez por eu estar pensando no bolo que abatumou, tenha me esquecido.

Fundamentos

A nuvem (nublada) do desmame

O desmame é a maior mudança na vida do leitão. Em um só momento ele enfrenta uma nuvem de estressores simultâneos, cada um empurrando o consumo, a sanidade e o ganho de peso na primeira semana.

Perda da mãePerda dos irmãosBaia novaCaminhãoBarulhoFrioJejumÁguaComedouroRaçãoSojaMicrobiotaVacinasBrigas

Reconhecer essa nuvem é o primeiro passo para não colocar todo o peso do resultado nos ingredientes da dieta e passar a olhar para o ambiente, para o manejo e para o leitão que está sofrendo mais.

Capítulo 1

Idade ao desmame

Falar que aumentar a idade ao desmame aumenta o peso ao desmame e o desempenho subsequente é chover no molhado. Antes de decisões precipitadas, alguns pontos são essenciais.

1. O tamanho do ganho depende do status sanitário. Sistemas com problemas (aproveitando menos de 93–95% dos desmamados) têm alta capacidade de ganho aumentando a idade ao desmame. Não existe idade exata ideal. Sistemas “redondinhos”, com perdas de creche < 3% e de terminação < 2%, provavelmente tirarão menos “suco”. As melhorias em GPD e perdas são da ordem de +10 g/d e −0,7% e +7 g/d e −0,3% por dia de aumento da idade em cenários com e sem desafios sanitários, respectivamente.

2. É difícil justificar financeiramente o aumento da idade em sistemas onde não há chance de ampliar a maternidade. A alternativa é reduzir plantel, o que quase sempre reduz o número de leitões produzidos por ano.

3. Os ganhos “indiretos” são grandes. Cada cela parideira adicionada permite, grosso modo, mais uma fêmea no rebanho. Dá para simplificar ainda mais as dietas de creche com leitões mais maduros fisiologicamente. Há redução do uso de antimicrobianos injetáveis, mais lotes/ano na creche e terminação, drástica redução no vício de sucção de umbigo e nos leitões que perdem peso na primeira semana, menor necessidade de baias hospital e menos horas dedicadas aos manejos — principalmente na creche.

Capítulo 2

Primeira semana: sobrevivência e perfil de ganho

Os primeiros dias na creche são importantes, mas muitas vezes esse tópico é supervalorizado. A primeira semana, quando combinada com o peso ao desmame, é responsável por apenas 50% do resultado da creche. Precisa ser melhor entendida — e não receber o fardo de ser a responsável pelo veredicto final aos 42 dias.

Em desmames de 21 dias, é inevitável que 20 a 30% do lote perca peso na primeira semana. Em desmames de 25 dias, cai pela metade, 10 a 15%. Isso independe do peso ao desmame: nem pequenos nem grandes estão mais ou menos suscetíveis. O GPD da primeira semana também não tem relação com o peso ao desmame.

A metade mais leve inicia o consumo cerca de 5 horas antes (tem menos energia acumulada, precisa comer). A metade mais pesada demora mais (tem reserva, disputa dominância e depois come). Aferindo o GPD ao 4º dia, os menores levam vantagem; nos 3 dias restantes, os maiores empatam.

Capítulo 3

Uniformização por peso ao alojamento

Muita gente vê poluição visual quando encontra animais de diferentes tamanhos em uma mesma baia. Existem mais motivos para deixá-los quietos e mistos do que “organizá-los”. Não há evidência científica — nem em testes de campo — de que leitões uniformizados por peso têm melhor ganho, consumo ou conversão alimentar.

Leitões em baias uniformes brigam mais, e isso pode retardar o início do consumo alimentar. É como organizar os brinquedos das crianças por cor, modelo e tamanho: elas jogam tudo no chão e brincam do mesmo jeito. Não confunda baia com baixa variação de peso com a variação de peso do lote todo.

Capítulo 4

Manejo alimentar: comedouros e água

O conceito-chave para o sucesso na creche é: “fazer o leitão comer”. Você já parou pra pensar quantos reais passam por um comedouro por ano? É muito dinheiro. Por isso, a qualidade do comedouro é uma das principais ferramentas do manejo alimentar.

  • Se tivesse que escolher só um ponto de qualidade, seria a precisão dos ajustes.
  • Ajustes firmes, aço inoxidável, fácil de manter o preenchimento de bandeja de 80% na 1ª semana e 50% nas demais.
  • Cuidado com “sopas” e fermentação de pré-iniciais (conteúdo lácteo azeda rápido): regule bem a água ou ligue-a só na metade final da creche — ou vá de seca.

Proporção de leitões por espaço de comedouro: em ração úmida, bons resultados com 6–7 leitões por espaço (14–16 cm). Em ração seca, o leitão demora mais para ingerir o volume, então 4–5 por espaço. Muito espaço = desperdício e pior conversão; pouco espaço = queda de consumo, GPD e mais mordeduras de cauda e orelha. Neste cenário, prefiro errar para mais: mais espaço melhora a visualização do alimento pós-desmame, reduz o intervalo até o primeiro consumo e “protege” o leitão, diminuindo mortalidade e refugagem.

Um pouco de ração em tapetes com bordas elevadas próximo ao comedouro nos primeiros dias também ajuda a acelerar o início do consumo.

Capítulo 5

Dietas pré-iniciais “caras”

Direto ao ponto: é perfeitamente possível trabalhar nas primeiras 2 a 3 semanas de creche com uma dieta sem ingredientes mágicos. Muitas empresas obtêm bons resultados — não só de GPD, mas de custo — com 15–18% de lactose na pré-1 e 1,35–1,40% de lisina nas pré-1 e pré-2.

  • Usar proteínas de alta digestibilidade (concentrado de soja, plasma) para “diluir” o farelo de soja.
  • Fazer o leitão comer é a chave dos primeiros dias — simples e sem ingredientes mágicos.
  • Dietas simples são economicamente melhores e não exigem intervenções medicamentosas adicionais.
  • Podem gerar mais leitões com fezes amolecidas, mas sem prejuízo na performance futura.
Capítulo 6

Densidade

Um dos números mais presentes na cabeça dos profissionais da suinocultura é 0,33 m²/leitão. Porém, existem sistemas colhendo bons resultados reduzindo o espaço por suíno para 0,28 m²/leitão. Dependendo do piso, da ambiência e, principalmente, do maior espaço de comedouro (0,25 m²/leitão), é possível colocar 4 leitões por m² em vez de 3.

Estudos mostram que essa redução não piora desempenho nem gera mais mordedura de caudas, desde que acompanhada de zero restrições em espaço de comedouro, boa qualidade de ar e higiene das baias. Os valores tradicionais (0,33 ou 0,28) foram calibrados para 6 kg → 22 kg. Com a tendência de aumento da idade ao desmame e saída com 24–26 kg, dá para repensar a densidade — desde que mortalidade, descartes e mordedura de cauda não piorem. O real ganho: mais suíno por m² e a instalação se paga mais rápido.

Capítulo 7

Tamanho de baia

Em um mundo perfeito, a regra seria: quanto menor, melhor. Mas o custo com portões, grades e muros aumenta, e o trabalho do funcionário fica mais difícil com tantos obstáculos. Na ciência e na prática, o máximo é 80 leitões por baia — mesmo assim já há piora de desempenho quando comparado a grupos de 20–30 leitões/baia.

Leitões formam uma sociedade hierarquizada: quanto mais leitões, mais interações sociais (brigas) durante o lote. Em projetos modernos, as pirâmides são pensadas junto: barracões de creche para 1.200 leitões com 44 baias e 27–30 leitões/baia são o destino de desmame de UPL de 2.400 fêmeas.

Capítulo 8

Efeito multiplicador

Sim, o efeito multiplicador existe. Porém, são raríssimos os relatos em que 1 kg virou 2 kg, 2 kg viraram 4 kg. Nos trabalhos científicos com controle individual e número representativo de animais, sempre que a multiplicação ocorreu, ela estava ligada à biologia, não a algo “manipulável”.

A idade ao desmame também multiplica peso, muito por conta do efeito deletério do desmame precoce sobre o TGI. Em estudos com idades acima de 21 dias, a multiplicação não ocorreu quando os animais foram comparados na mesma idade ao abate.

Espaço de comedouro, densidade, dietas complexas, antimicrobianos e diversos produtos funcionam enquanto estão presentes. Se você fizer essas intervenções na creche e submeter os animais a uma mesma terminação, o peso final será praticamente o mesmo.

Capítulo 9

Número de origens

Calcular exatamente os custos e receitas de reduzir o número de origens é difícil. Envolve diferenças de desempenho e mortalidade, logística de transporte e clusters de UPL, creche e terminação. Mas uma coisa é certa: menos origens = menos chamados, menos gasto com medicamentos e laboratório e menos animais na composteira.

O professor David Barcellos já cansou de falar sobre os benefícios de reduzir para 1 origem, se possível. Mesmo com uma única origem, a demora para alojar uma creche por completo (4 alojamentos em 2 semanas, por exemplo) prejudica muito os últimos a chegar. O manejo em bandas tem, em muitos casos, boa viabilidade e praticamente dobra, triplica ou quadruplica rapidamente o “tamanho” de uma granja com manejo semanal.

Capítulo 10

Entendendo os dados

Talvez um dos piores sentimentos na produção de suínos seja ter bancos de dados, registros dos mais diversos e pilhas de resultados de lotes — e não conseguir usar tudo isso em uma tomada de decisão consistente, sem “achologia” e com análises precisas. A creche talvez seja o setor mais aquém em evolução de dados zootécnicos.

Identificação
  • Produtor
  • Barracão
  • Data de alojamento
  • Data de saída
  • Nº de origens
  • Idade de desmame
  • Amplitude de idades
  • Nº de animais
  • Dias de vazio
Estrutura
  • Leitões por baia
  • Leitões por boca de comedouro
  • Tipo do comedouro
  • Piso compacto (%)
  • Densidade (n/m²)
  • Qualidade da ambiência (escore)
  • Pé direito (m)
  • Tipo de bebedouro
  • Leitões por bebedouro
  • Leitões por funcionário
Características
  • Kg de pré-1/leitão
  • Duração pré-1 (d)
  • Refugagem e mortalidade até o 7º dia (%)
  • Kg de pré-2/leitão
  • Duração pré-2 (d)
  • Vício de sucção de umbigo (escore)
  • Forma da ração
  • Ração úmida
Sanidade
  • Diarreia 1ª semana (%)
  • Respiratório 1ª semana (%)
  • Diarreia 2ª–3ª semana (%)
  • Respiratório 2ª–3ª semana (%)
  • Diarreia 4ª–6ª semana (%)
  • Respiratório 4ª–6ª semana (%)
  • Medicação via água (n)
Resultados
  • Peso inicial (kg)
  • Peso final (kg)
  • Ganho de peso diário (g)
  • Consumo médio diário (g)
  • Conversão alimentar
  • Descartes (%)
  • Mortalidade (%)
  • Idade saída (d)
  • Caudas/orelhas mordidas (%)

Grande parte destes pontos é fácil de coletar. Alguns nem mudam. Não entrei a fundo em formulações e custos porque penso que isso é não-negociável — vem antes de tudo. Mas um bom controle do que acontece no campo auxilia, inclusive, a tomada de decisão sobre dietas e custos.

Encerramento

Um último abraço

Espero ter ajudado em, ao menos, um ponto dos que abordei aqui e que tenha sido uma leitura produtiva. A creche realmente guarda vários outros detalhes, mas creio que aqui, no Descomplicando os 42 dias, o princípio de Pareto foi aplicado. Obrigado pelo seu tempo e atenção — coisas que valem mais do que dinheiro.

Se você tem algum comentário para fazer, escreva para contato@swineit.com. Se discorda de algo, sem problema algum — pessoas têm experiências e visões diferentes, e isso é muito bom.

Abraço,
Jamil Elias Ghiggi Faccin